Ela venceu o câncer

As manifestações do corpo e do organismo durante a vida geram o autoconhecimento sobre si mesmo. Sobre o que faz mal e o que faz bem. Quando é hora de cuidar-se ou quando se está livre para cometer algum exagero eventual. Essa atenção faz parte do dia a dia das pessoas. Eu sou assim, comigo acontece assim, sempre foi assim comigo. Mas será que essas particularidades orgânicas são traços do organismo, dos órgãos, do corpo ou podem ser vistas como sinais de saúde ou doença ao longo do tempo? Hoje Rosa Camino se faz essa pergunta. Apesar de não ter uma resposta, sabe que tem uma história de superação para contar, depois de passar por um câncer no Intestino Grosso e vencer a batalha.

Desde pequena Rosa Camino, 47 anos, administrativo na Ortopedia Wiesbauer, sentia dificuldades de ir ao banheiro. O intestino sempre significou um certo sofrimento. Já habituada Rosa nunca viu isso como um problema, até que sentiu cólicas e vontade de ir ao banheiro com frequência quando trabalhava, no final de 2014. “Quando eu ia ao banheiro não conseguia evacuar, muito pouco, só umas bolinhas”, conta ela.

Rosa procurou o Dr. Fernando Salatino, do SindecRS – Sindicato dos Empregados no Comércio de Porto Alegre. Ele solicitou uma ecografia, que foi realizada particular porque o sindicato não oferece exames. Rosa voltou para consultar o Dr. Salatino. Como o resultados dos exames não acusou nada, o doutor pediu para ela tomar remédio para vermes. “Foi quando comecei a evacuar sangue”, lembra Rosa. O Dr. Salatino pediu colonoscopia, exame feito particular pelo Dr. Frederico Sedrez.

A descoberta do câncer e o choque

Dia 02 de janeiro de 2015 Rosa recebeu o resultado do exame. “Fui correndo para a Internet pesquisar. O exame acusava endocarcinoma e possível PAF – Polipose Múltipla Familiar”, relata ela. “Meu mundo caiu. Não dormi à noite. Só vinha endocarcinoma na minha cabeça” conta Rosa.

Para amenizar a situação Rosa decidiu ir com o marido para Caxias do Sul passar o final de semana com amigos, para tentar esquecer a notícia. Ela ainda precisava levar o exame no médico. O final de semana acabou, veio o dia da consulta e o veredito se confirmou. Ele disse que ela precisava ir urgente para o posto de saúde. Ela fez isso no mesmo dia.

Em casos de câncer, conforme a Lei 12.732 de 22/11/2012 , os pacientes precisam ser atendidos dentro de um determinado prazo. Em 10 dias, depois de passar pelo posto de saúde, Rosa foi chamada no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, no  setor de proctologia. Uma bateria de exames foi realizada. Quando estava no meio do procedimento de retossigmoidoscopia o médico perguntou se ela sabia o que estava acontecendo. “Eu disse: eu sei que estou com um tumor maligno”, lembra. Ninguém confirmou ou discordou, apenas pediram que ela marcasse uma consulta e fosse com um acompanhante.

A hora do diagnóstico

Na consulta, acompanhada do esposo, o médico disse que teria de tirar todo o Intestino Grosso. Não havia chance de salvar o órgão. O Intestino Grosso estava tomado de pólipos. Em casos que a lesão afeta apenas parte do órgão é possível remover apenas a região atingida, mas não era o caso da Rosa. “Eu já estava esperando. Quando vi meu intestino no exame, durante o procedimento, parecia com um cacho de uva”, conta.

As consultas médicas foram os priores momentos para Rosa. “Eu saía arrasada. A cada resultado de exame o médico falava tudo o que poderia acontecer”, lembra. “Ele disse que o meu caso estava complicado, que o intestino estava tomado de pólipos. Disse que se eu tivesse filhos, a chance dele ter a doença seria de 50%”. Para complicar ainda mais o médico disse que só saberia a real dimensão da gravidade da situação na cirurgia. O câncer poderia já ter se alastrado e tomado conta de outros órgãos.

Dois tipos de cirurgias e uma escolha

Dois tipos de cirurgia foram oferecidos pelo médico. A primeira opção seria usar a Bolsa de Colostomia para sempre. Essa seria a cirurgia menos arriscada. A segunda opção seria a cirurgia com a Bolsa Ileal em J. Um procedimento bem grande. Basicamente consiste em usar o Intestino Fino para fazer uma bolsa coletora, que substitui o Intestino Grosso.

“Na hora pensei em fazer a cirurgia com a bolsa externa, já que seria a menos arriscada”, diz Rosa. “Meu marido perguntou para o médico sobre a opinião dele, qual cirurgia ele faria”, conta. O médico respondeu que faria com a Bolsa Ileal em J por causa das características da Rosa, como idade e corpo magro. Ele disse que possivelmente daria certo. “O médico sugeriu para eu ir  para casa e pensar no assunto”. Rosa aproveitou para procurar novamente o Dr. Fernando Salatino, do Sindec. Uma decisão precisava ser tomada e o Dr. Salatino poderia ajudar.

“Fui cirurgião durante 20 anos. Fazia cirurgia geral, do pescoço para baixo operava tudo. Quando o câncer não ultrapassa o peritônio, a resposta do pós-operatório nas cirurgias de Intestino Grosso são positivas”, diz o Dr. Fernando Salatino, que tem 35 anos de profissão. O Dr. Salatino orientou Rosa a fazer a cirurgia com Bolsa Ileal em J. Ele disse já ter presenciado muitos casos de sucesso em hospitais onde trabalhou.

A tomada de decisão

Mais encorajada pelo médico do sindicato, ela voltou ao Hospital de Clínicas para falar com o Dr. Daniel Damin e dizer que estava preparada para a cirurgia com a Bolsa Ileal em J. Dia 06 de abril Rosa se internou no Hospital de Clínicas para fazer a cirurgia, que aconteceu no dia 08 de abril de 2015.

A cirurgia e o pós-operatório

A cirurgia realizada pela equipe do Dr. Damin durou sete horas e foi um sucesso. Rosa ficou internada 15 dias para o pós-operatório e recuperação. Foram dias difíceis. Nos primeiros dias teve de ficar sedada com morfina para suportar as dores. “Eu sentia muito enjoo e hora sentia calor, hora sentia frio. O médico disse que poderia ser da morfina”, conta ela. O médico foi tirando a morfina e o enjoo e mal-estar passaram.

As dificuldades não cessaram, ela sentia muito desconforto e tentou sentar na cama, mas sentiu-se mal, foi quando a enfermeira sugeriu um banho. Rosa tentou ir até o banheiro e descobriu que não conseguia ficar em pé. Sentiu fraqueza e desmaiou. Depois de quatro desmaios em tentativas de ir ao banheiro tomar banho foi encaminhada para um Médico Clínico Geral. O diagnóstico foi Hipotensão Postural.

Rosa foi submetida a um soro mais forte. O marido teve de ajudar com exercícios nos braços e pernas para fortalecer a musculatura e fazer o sangue circular. Em poucos dias já melhorou. Conseguiu sentar na cama e ensaiou os primeiros passos no quarto, até o banheiro, até janela e até a porta.  “A recuperação foi bem lenta. Tudo era devagar, 1% a cada dia”, conta. Alguns dias depois Rosa teve de fazer uma tomografia. “Foi um alívio sair do quarto e ver pessoas”, lembra

Primeiros dias em casa com a Bolsa de Colostomia

Depois dos bons resultados do exame de tomografia logo veio a alta do hospital. Tudo agora dependeria da própria recuperação dela e de como o organismo reagiria. Rosa estava com a Bolsa de Colostomia, necessária para a adaptação do corpo. “Eu poderia usar a Bolsa de Colostomia por até um ano. Usei por quatro meses e meio”, diz.

A primeira cirurgia foi para a retirada do Intestino Grosso e preparação da alça em “J” para posterior reversão das funções intestinais e abertura do ostoma para receber a bolsa coletora. Rosa agora precisava passar por uma fase de adaptação e depois por uma segunda cirurgia, que seria para a retirada da Bolsa de Colostomia e ligação do Intestino Fino, a chamada Bolsa Ileal em J.

Rosa ganhou 15 dias de atestado e pediu para a empresa 10 dias de férias para voltar a levar uma vida normal. “Foi tudo muito devagar porque eu não podia fazer nada, carregar peso, subir escada, lavar louça. Não podia ficar muito tempo de pé”, Lembra ela. “Pensei que fosse entrar em parafuso”.

 

Voltando ao trabalho

Rosa precisava ter uma boa recuperação, mas ao mesmo tempo já se sentia presa dentro de casa e limitada. O corpo já pedia mais atividades. Foi então que Rosa decidiu voltar ao trabalho, imaginando que seria uma forma de auxiliar na recuperação e também na adaptação que precisava ser em âmbito físico e psicológico. “No primeiro dia fiquei algumas horas, tive um vazamento na Bolsa de Colostomia, saiu um pouco de sangue. Voltei para casa para repousar, mas já no segundo dia fiquei o dia todo”, relata.

O marido como parceiro

Além da própria força de vontade e otimismo, Rosa contou com a parceria do marido como aliada. O fotógrafo Jerônimo Ferreira de 60 anos foi quem deu todo apoio que Rosa estava precisando naquele momento tão difícil. “Ele me levou e buscou no trabalho todos os dias, durante o ano de 2015”. Além do deslocamento, Jerônimo deu todo o apoio psicológico que ela necessitava na etapa de recuperação e adaptação e no preparo para a segunda cirurgia, ajudando em todos os momentos, como na troca da Bolsa de Colostomia, que precisava ser trocada de três em três dias. “No começo foi horrível, parecia que eu estava mexendo em algo que não fazia parte de mim”, conta.

 

 

Rosa não conseguia fazer a troca sozinha, o marido era quem fazia esse trabalho, seguindo as orientações do médico. “Eu não conseguia nem olhar. Enquanto eu tomava banho, meu marido ia preparando a Bolsa para ser trocada. Eu tinha de sair do banho tapando o local com uma gaze para não ter vazamento, se tivesse tinha de voltar ao chuveiro e lavar novamente”, conta Rosa. Esse ritual ocorreu durante os quatro meses e meio que usou a Bolsa e Colostomia.

A segunda cirurgia, a chamada Bolsa Ileal em J

A rotina com a Bolsa de Colostomia agora daria lugar a uma nova situação, que seria mais um desafio para Rosa. Chegou o momento de fazer a segunda cirurgia, a Ileal em J. Esse procedimento consiste na retirada da Bolsa de Colostomia e na ligação da Bolsa Ileal em J, que é na verdade o Intestino Fino fazendo o papel do Intestino Grosso, que foi retirado. A cirurgia foi bem mais leve que a primeira. A recuperação no hospital levou nove dias. “Eu tive de usar fralda porque ficava vazando. O organismo ainda não estava adaptado à Bolsa Ileal em J”, lembra.

A adaptação à rotina diária, agora sem a Bolsa de Colostomia, também foi mais leve. Rosa mudou os hábitos fisiológicos. “Eu vou ao banheiro em torno de sete vezes ao dia, já estou acostumada”, conta ela.

Hoje em dia

As consultas médicas eram uma vez por mês, depois passou para três em três meses e, desde a última consulta, em janeiro, as visitas ao médico passaram a ser um vez a cada seis meses. “Hoje em dia tenho uma vida normal, com algumas limitações na alimentação e precisando ir ao banheiro em torno de sete vezes ao dia e duas vezes à noite”, diz Rosa. “Câncer não é o fim do mundo. Precisamos aceitar e enfrentar, o importante é viver. Não é nada fácil, mas nestas horas descobrimos uma força interior que nos estimula a lutar”, conta.

A melhor forma de terminar uma história como a da Rosa é com agradecimentos. “Agradece a minha família e amigos que estiveram comigo esta luta, minha vizinha Dora Lucia que me auxiliou no posto de Saúde Santa Marta e também Marlene Hammes (ostomizada) e Aldirio Medeiros (enfermeiro), sem me conhecerem foram até minha casa, me deram todo o auxílio necessário. Se não fossem eles não sei o que seria de mim”, diz.

Se você tem alguma história de superação nos envie por email (ortopedia@wiesbauer.com.br), será um prazer publica-la e incentivar outras pessoas que passam pelo mesmo problema. Nada melhor que o exemplo para sabermos que tudo pode dar certo.

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