Dia do Esportista: Conheça os atletas e a Vela Adaptada em Porto Alegre

O esporte é transformador. Para a pessoa com deficiência, ele pode ser um meio de ressocialização e terapia. Neste post no Dia do Esportista, você vai conhecer o projeto de Vela Adaptada oferecido no Iate Clube Guaíba, em Porto Alegre, e ainda conhecer alguns dos atletas que praticam o esporte, a vela adaptada, as barreiras que ainda precisam ser vencidas no esporte e na acessibilidade, assim como o que é preciso para usufruir do projeto. Confira e amplie seus horizontes!

Os atletas da Vela Adaptada

O dia da entrevista da Ortopedia Wiesbauer com o pessoal da Vela Adaptada no Iate Clube Guaíba não estava muito propício para o esporte, mas encontramos três das 15 pessoas com deficiência inscritas no projeto.

Rafael Ferreira Correa, 39 anos, está na cadeira de rodas há nove anos, em função de um assalto à mão armada. “O esporte foi o maior motivador de todos na minha recuperação. Só me recuperei bem mesmo depois do esporte. Comecei a sair de casa para praticar esporte, visto que o meu trabalho não exigia que eu saísse, então acabava ficando muito em casa”, conta Correa. Ele começou no tiro esportivo, depois passou para a esgrima em cadeira de rodas e então encontrou a vela adaptada, com indicação e incentivo do cunhado já velejador.

“O esporte é a minha melhor terapia, entre a fisioterapia, o psicólogo. Saio renovado da água!”, explica Correa. O sucesso na vela adaptada é tão grande que o atleta já tem alguns títulos estaduais e três títulos nacionais no esporte, sendo campeão brasileiro duas vezes.

Já Rafael Martins dos Santos, 38 anos, tem 20% de visão em função das doenças degenerativas retinose pigmentar e glaucoma. “Em 2010 tive contato com uma pessoa que velejava e me contou que havia um projeto de vela para pessoas com deficiência no Iate Club Guaíba, em que poderíamos aprender a velejar e aproveitar a oportunidade de aprender o esporte. Perguntei se minha baixa visão seria um impeditivo. Logo me disseram que não, que haviam barcos que permitiam que eu participasse! Seria um barco tripulado em determinada atividade para poder fazer a velejada”, explica Martins.

Entretanto, somente em 2014 Martins realmente entrou em contato com a Esportiva do clube e falou com o professor Anderson Paixão, instrutor da Vela Adaptada. “Vim fazer as primeiras aulas, conhecer a velejada, os barcos. Foi bem legal, depois de um tempo já estava participando do Campeonato Paulista, novembro de 2014, e no Campeonato Gaúcho. Foi bem bacana, pois fui o primeiro deficiente visual que veio a velejar com a turma aqui do Iate Club. Ficou um barco bem diversificado e foi uma experiência bem boa, a sensação de andar no rio, perceber a cidade de outro jeito”, expressa Martins, que encontrou no esporte uma alternativa para desbravar outros nortes. “O esporte acaba sendo super motivador, sentir a adrenalina de novo, sair e encontrar outras práticas, como a vela”, relata o atleta.

O Carlos Antônio tem 50 anos, trabalha nos Correios e ainda estuda à noite. Protetizado de uma perna, o atleta é um dos mais novos no projeto e pratica a vela adaptada há cerca de dois anos. Carlos faz questão de expressar sua gratidão: “Isso aqui é muito bom para nós. O pessoal trabalha muito para deixar tudo pronto para nós podermos usar”.

O atleta acredita que o Governo deveria incentivar mais estes projetos. “Estamos aqui graças ao pessoal, tem de ver o que o professor Anderson faz por nós. Ele tem de pegar os cadeirantes no colo para fazer a transferência para o barco. Ele é um verdadeiro herói! Há diversas soluções simples que poderiam facilitar o trabalho, mas falta verba para investir. Inclusive a manutenção dos barcos, é tudo feito pelo pessoal da Esportiva, o clube dá bastante apoio neste sentido, mas realmente falta um investimento maior. O pessoal chega a tirar do próprio bolso para deixar tudo em dia. O esporte é uma maneira boa de inclusão, deveria ser mais valorizado no setor público e privado”, conclui Carlos Antônio.

A vela e a vela adaptada não têm muitas diferenças, apenas que os barcos têm mais acessibilidade, estabilidade e podem ser menores. “Quando falamos em vela adaptada, ela é realmente adaptada para alguma necessidade. Levamos em consideração a deficiência da pessoa e adaptamos o barco para uma função que ajude o velejador”, explica o instrutor Anderson Paixão.

Para os cadeirantes no barco individual, os controles podem ser feitos apenas pelas mãos. Quem tiver deficiência em um dos membros superiores, pode controlar o leme com os pés e a mão vai controlando os cabos. “Há muitos comandos no barco, é um controle físico, mas muito cerebral também para acertar as regulagens”, diz Paixão.

Rafael Correa considera a vela um pouco difícil de descrever. “É bem interessante andar com o vento, de certa forma é até difícil, controlar o barco e fazer ele ir para onde a gente quer, porque no começo ele vai pra onde ele quer! A convivência com os atletas é bem bacana, o clube também, temos total acesso”, considera Correa.

A postura também pode mudar na velejada. Com a entrada do Rafael Martins e sua deficiência visual, a tripulação começou a conversar mais, a avisar os seus movimentos ou o que o Rafael deveria fazer dali a pouco em função de uma mudança. “Quando eu entrei mudou bastante a comunicação no barco. Qualquer coisa eles me avisam, pois eu não estou percebendo o que seria automático para alguém que enxerga bem”, explica Martins. “Isso foi uma coisa que nós aprendemos com o Rafael, então nós aprendemos muito com o velejador também”, complementa Paixão.

Já o barco de duplas aceita uma pessoa com deficiência severa e outra nem tanto. Há um sistema de pontos para organizar as tripulações para que a competição seja justa. Quanto maior a deficiência, menor a pontuação, a qual não pode passar de 14. A regra serve para barcos com mais de duas pessoas também.

Além disso, quem pratica vela aprende um vocabulário totalmente novo. “No primeiro dia de aula o pessoal chega a se assustar e questionar ‘o que eu estou fazendo aqui?’ Mas depois é tranquilo”, conta Anderson. “É um alfabeto completamente novo. Não existe esquerda ou direita, é bombordo ou boreste! E por aí vai”, complementa Martins.

Quem estiver interessado em começar a praticar a vela, adaptada ou não, pode se preparar para estar velejando bem em cerca de seis meses. “A primeira barreira que o pessoal tem que ultrapassar é o medo de virar o barco. Pegando o jeito, depois é treino mesmo para aperfeiçoar a performance”, conta Paixão.

Competições de Vela em 2017

Apesar de todas as dificuldades com a falta de investimento, o pessoal não desanima para as competições. O Campeonato Mundial de Vela Adaptada está para ocorrer em Maio de 2017. “Estamos em busca de patrocínio para o Rafa (Correa), para que ele possa participar do Mundial na Alemanha”, avisa Paixão. O Campeonato Brasileiro de Vela está previsto mais para o final do ano, mas também está na mira do instrutor e dos atletas.

O projeto no Iate Clube Guaíba

O projeto da Vela Adaptada existe em todo o Brasil através do Ministério dos Esportes e da Confederação Brasileiro de Vela Adaptada. Há 15 pessoas com deficiência inscritas na Vela Adaptada do Iate Clube Guaíba. Os treinos podem ocorrer cerca de três vezes por semana, mas às vezes as condições climáticas não estão favoráveis. Podem participar pessoas com o deficiência física, não intelectual, em qualquer idade. O treino infantil ocorre aos finais de semana e é pago.

Quem procura o projeto costuma ser adulto e ter adquirido a deficiência ao longo da vida. “Nós também abordamos as pessoas na rua e convidamos para elas virem conhecer e praticar o esporte’, conta Correa.

Há diversas barreiras que são ultrapassadas com a paixão e o entusiasmo que o esporte proporciona. O transporte dos atletas é independente. Por vezes eles conseguem organizar caronas com os colegas, mas nem sempre isso acontece ou é bem sucedido.

Quem estiver interessado em participar do projeto, que é totalmente gratuito para pessoas com deficiência, basta entrar em contato com o instrutor Anderson Paixão para saber mais detalhes: (51) 98149-7851.

Falta incentivo no esporte e no paradesporto

Os atletas relatam que após as Paralimpíadas o incentivo no esporte para pessoas com deficiência decaiu muito. “Até as Paralimpíadas Rio 2016 o sistema ainda estava funcionando direitinho, os atletas recebiam suas bolsas e tudo o mais. Depois do evento algumas bolsas foram cortadas, assim como a verba que deveria ser destinada para o esporte”, explica Martins.

Para muitas pessoas o esporte é o start no processo de reabilitação. Se a pessoa nasce com alguma deficiência ou vem a adquiri-la em sua vida, o esporte pode ser o impulsionador para ela sair de casa, ir a tal lugar e se desafiar. “O esporte é uma alternativa de reabilitação. Nós temos 24% da população brasileira com algum tipo de deficiência, isso é muito. Ampliar o esporte e as alternativas de práticas é uma ótima ideia e não é tão caro”, lembra Martins.

“De um modo geral o esporte é um meio de inclusão, porque até mesmo para quem não tem uma deficiência é difícil fazer um esporte de maneira gratuita a nível de Brasil, pois não há muito incentivo. O esporte deveria ser mais valorizado, é bem importante para crianças e adolescentes também, pois se criam com regras, disciplina, saber ganhar e perder”, salienta Correa.

O fator financeiro tem grande peso na escassez de paratletas. Apesar de existirem projetos esportivos gratuitos, todo o resto não é custeado. Para chegar a um nível bom de rendimento que permita o atleta a participar de competições, os treinos devem ser diários, o que impede a pessoa de trabalhar para o seu sustento. As pessoas acabam tendo de escolher entre o trabalho e o esporte.

Mesmo com a Bolsa-Atleta, que é o benefício pago pelo governo ao atleta inscrito no programa homônimo, se colocado na ponta do lápis os gastos com transporte, equipamento, treinamento, ou estadias e alimentação em tempos de competição, eles excedem o salário mínimo pago pela bolsa, que funciona como um complemento na renda.

A real inclusão

Quando se fala em paradesporto, normalmente as pessoas acham que é algo somente para pessoas com deficiência. Na realidade, toda modalidade paradesportiva pode ser praticada se a pessoa tem algum tipo de deficiência ou não.

“Aqui, por exemplo, a gente pode montar um barco misto de pessoas com deficiência e sem deficiência. É isso que ajuda na inclusão. A possibilidade de o professor de educação física conhecer as modalidades paralímpicas e estimular a turma a se envolver e conhecer é legal. Colocar a gurizada vendada a jogar futebol, por exemplo”, expõe Martins.

Para os atletas, a real inclusão deve ser esta: em que pessoas com deficiência frequentam e usufruem dos mesmos lugares e serviços que as pessoas sem deficiência. Pode-se começar nas escolas, com os professores ensinando os alunos a se sensibilizarem com a deficiência física e adaptações em acessibilidade, passando para os pais e a sociedade como um todo, realmente incluindo a pessoa com deficiência na sociedade.

Grande parte da inclusão também inicia na acessibilidade. Ruas, parques e comércios com rampas, profissionais preparados para o atendimento de pessoas com deficiência e materiais gráficos em braile. “Até mesmo para o emprego, há muitas empresas que devem cumprir a lei de cotas para deficientes, mas não são acessíveis. Costumo dizer que o deficiente físico é muito eficiente para o trabalho também, mas há inúmeras barreiras a serem quebradas ainda”, conta Correa.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.